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ANOS ATRÁS...
1988.
A contragosto, o Governo Imperial do Brasil aceita assinar
a Lei Áurea, que, pelas mãos da Princesa Isabel,
tomou corpo, tudo pautado por um passado recente de outras
leis de combate à escravatura, sem sucesso, o que
trazia á tona uma briga de interesses onde os fazendeiros,
“donos” dos escravos, eram os “beneficiados”.
Além
de uma quebra política significativa, a Lei Áurea
não trouxe uma realidade vantajosa aos negros emancipados.
Sem estudo, sem moradia, e vivendo ainda com o racismo exacerbado
e feroz, não se viu, nos anos que se seguiram, uma
evolução real no sentido de equalizar os valores
sociais entre as raças no país.
2008.
Depois de 120 anos passados, a Lei Áurea ainda parece
não ter cumprido de forma integral seu objetivo primário
de igualdade. A população negra do Brasil
ainda sofre economicamente, ocupa as camadas mais pobres
da sociedade, e tem de lidar, ainda, com uma segregação
racial em seu dia-a-dia.
Hoje,
não são mais os fazendeiros que trabalham
contra a igualdade. Em 1988, a Lei Áurea ganhou apoio
de intelectuais, estudantes, advogados e jornalistas. No
entanto, em 2008, os “redutos” intelectuais,
as universidades, os bairros nobres, claramente não
possuem convívio igualitário entre negros
e brancos. Entre advogados e jornalistas, podemos notar
que os negros são minoria absoluta. São dados
que entram em conflito com as estatísticas mais elementares,
que apontam que a maioria da população brasileira
é negra. É como uma festa, em sua própria
casa, comemorando seu próprio dia, mas, na hora da
valsa, você tem que dançar com a mais feia,
com aquela que pisa no teu pé.
Entendia-se,
cerca de 120 anos atrás, que vivíamos em uma
sociedade que se pautava na desigualdade, na hierarquia
do poder, e que a cidadania não era nada exercitada.
Era uma sociedade em que a escravidão, por conta
dos anos tratados com normalidade, era algo consumado e
“compreendido”. O que, no entanto, não
entende-se, é que na sociedade atual, num ambiente
de dita democracia, onde mídia e intelectualidade
são tão exercitados, haja preconceito semelhante.

E
há. Porque sabe-se, uma lei muda as normas, mas não
reeduca uma sociedade desde sua raiz. Ninguém escraviza
publicamente nem espanca negros em praça pública,
pois há a lei. Mas, nas esquinas escondidas, o preconceito
ainda graça e foge de toda legislação
ou valor ético. Mais que a impossibilidade de fazer
plena parte do ciclo financeiro, trabalhista e social do
país, o negro ainda se vê sistematicamente
perdendo espaço dentro de sua própria cultura.
Vê a sua religião-matriz ser desviada para
o lado da caricatura, do descrédito, da bagunça,
do satanismo. Sua música e suas danças acabam
indo na mesma esteira, caindo em armadilhas comerciais e
culturais que colocam o controle comercial, o fluxo financeiro,
o destaque midiático, em mãos empresariais,
nem sempre compromissadas com a profundidade cultural do
trabalho que possuem, e, quase nunca, mãos empresariais
negras.
Samba.
De quanto tempo, de quantas influências, de tanto
corpo que te deu forma e silhueta, de tanta mente que te
deu vida e verdade. História de lados tão
múltiplos, por influências tão singulares,
de tantos frutos sustentados por tantas e tão fortes
raízes. Samba, antigo ópio de escravo, lamentos
de quilombos, cantos de saudade, signo de fé. Que
se cresce e se humaniza a cada adversidade, pois há
sempre algo mais elevado do que a glória. Que tange
a luta e tinge o sangue, que transforma sofrimento em orgulho,
dor em reação. Samba de ritmos, de cadências,
mas de, sobretudo, mensagens.
Eis
aí talvez a mais brasileira das culturas, e também
a mais afetada pelo elástico do tempo. Cultura negra,
negros escravos, 120 anos atrás, o tempo anterior
a isso, o tempo posterior, hoje. Fato que mudaram os valores,
as leis, as mentes. Atingiram o samba, como atinge-se inevitavelmente
tudo que é sagrado, quando luta-se de forma suja.
O samba perdeu algo de si, deixou-se afetar, não
conseguiu ser forte para manter algumas informações
milenares. Mas o samba está aí. Forte e imortal
como sempre deu sinal que seria. Quando se avista á
frente mais um carnaval, se olha pra trás com admiração.
É realmente digno de nota a longa vida numa espinhosa
estrada, coisa que o samba se submeteu, e passou de pé.
Nelson
Sargento, que colocou em uma de suas letras que o “samba
agoniza mas não morre, alguém sempre te socorre
antes do suspiro derradeiro”, está coberto
de razão. E é aí que entra a UESP.
Faz mais de 30 anos que a União das Escolas de Samba
Paulistanas trata não apenas de socorrer, mas de
manter vívido e saudável, na praça
paulistana e nas praças adjacentes, um samba que,
ao contrário do que outro poeta já disse,
está cada vez mais longe do túmulo.
A
UESP representa as Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos
da Cidade, e é membro do Conselho Municipal de Cultura.
Desde 1972, segue irredutível em seu propósito
previsto em sua constituição, de elevar e
encorajar ações culturais em nome do Samba.
Teve trajetória de sucesso indiscutível desde
sua nascença. Em 1986, surge a Liga, cisão
da UESP que passa a organizar e negociar contratos de forma
independente. A UESP ainda mantém-se alimentando
o Grupo Especial e recebendo Escolas novas e rebaixadas.
Com o tempo, surge uma outra Divisão organizada pela
Liga, o que não muda o trabalho pro ativo da UESP,
que segue revelando grandes nomes do samba, e formando Escolas
que seriam campeãs no futuro próximo. No começo
dos anos 90 do século passado, surge o Anhembi, o
Sambódromo, mas ainda assim a UESP mantém
seu trabalho de carnaval popular, de bairro, buscando pontos
periféricos, e não apenas centrais. A conclusão
que se tira é que, a despeito de todas as transformações
que o samba enquanto concurso apresentou, a UESP manteve
sua preocupação cultural, do samba enquanto
mensagem, e dessa forma pôde chegar ao ano de 2008
de forma integra, com fôlego para apresentar o mesmo
espetáculo, mas, ainda, com mais fôlego para
dar um grito primordial, um berro fundamental. Um rasgo,
um desabafo.
Eis
o Projeto 120 anos da Abolição da escravatura:
A Abolição Inacabada. Que tange o Carnaval,
mas existe desde antes, e dura até depois, ao longo
do ano. Que celebra, de alguma forma, mas reflete e encoraja
a discussão, sobremaneira. Uma ação
plural que tem a clara intenção de ficar na
memória de todos ao longo dos anos.
Os
120 Anos da Abolição já foram citados
e usados como temática e fundamento em eventos ao
longo do ano de 2007, como o Sorteio da Ordem dos Desfiles,
e a oficina Cultural com crianças de comunidades
carentes. O Curso de Jurados também esteve carregado
desta temática, durante seu curso. Para após
o Carnaval, a UESP deverá produzir um documentário
sobre o tema, e lançar um livro, contendo todas as
sinopses e enredos deste Carnaval. Também ficará
como herança cultural deste projeto, o Hino da Abolição,
que será feito por concurso, e o Troféu Novos
Abolicionistas. Além disso, a UESP ainda pretende
firmar suas idéias de discussão com um programa
de TV, e tornar seus registros pétreos através
da remodelação de seu centro de Documentação
e Memória do Samba.
Uma
série, portanto, de idéias que representam
um sonho, que refletem uma voz que, se 120 anos atrás
era calada, hoje já não pode ser. Uma voz
que, um dia, poderá gritar que as leis e as realidades
que encontramos em cada esquina estão em comunhão.
Pra
frente, samba.
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