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Abolição 120 anos

 

 

 

ABOLIÇÃO 120 ANOS

UESP, UMA ESCOLA DE VIDA!

Por Kaxitu Ricardo Campos, Coordenador de Carnaval da UESP


Eu conheci a UESP no inicio dos anos 80, quando eu e o meu irmão, depois de muita insistência, convencemos nossa mãe a assistir o desfile das campeãs na Av. Tiradentes. A nossa emoção era muito grande, não cabíamos em nós mesmos de tanta alegria. Morávamos, naquela época, no bairro do Bom Retiro.
Saímos animados de casa e já podíamos ver as luzes brancas da Av. Tiradentes. Meu pai avisou que iríamos pegar o trem e ir para a então distante Patriarca, bairro da Zona Leste, visitar um tio nosso que naqueles dias já tinha quase 100 anos. Não havia metrô até aquela região, então pegamos o trem. Naquele dia eu só pensava em ir para a avenida ver o desfile. Depois de algumas horas andando de trem e alguns minutos de visita, enfim chegamos na Tiradentes. Que legal aquela avenida iluminada! Com uma decoração com bolas de plástico brancas de vários tamanhos, os tapumes pintados de preto com bolas brancas, aquele cenário me lembrando o meu time do coração e a minha escola querida... Fascinante!
Desfile das campeãs normalmente é a festa de uma só entidade, mas naquele dia tudo estava maravilhoso. Meu pai era o cronometrista da cabine 1, que ficava onde as escolas entravam na avenida, e eu fiquei lá com ele, podendo ver tudo de perto. Depois dessa experiência, era chegar o mês de janeiro eu ligava pro papai para estar na cabine com ele. Papai não se importava, mas dizia que deveríamos, eu e meu irmão, participar das reuniões da UESP, pois lá se decidiam coisas importantes durante o ano, e tinham pessoas que eram verdadeiros professores de cultura.
Aliás, meu pai sempre dizia que "A UESP é uma verdadeira escola de vida". Eu para falar a verdade achava tudo isso muito chato, ser obrigado a ir a reuniões em maio, agosto? Não! Eu queria ver o desfile lá na avenida junto com o meu pai e só.
Passaram os anos, e meu pai sempre nos chamando, sem sucesso. Até que no carnaval de 86, quando ligamos para o velho pai na semana do carnaval, numa segunda-feira à noite, só o encontramos na UESP, que deveria estar lotada, pois era um dia de reunião dos presidentes.
Era a ultima reunião de muitas agremiações, que depois daquele carnaval formariam a LIGA Independente das Escolas de Samba de São Paulo. Nesse dia comecei a perceber uma faceta do carnaval: como ele tem o poder de transformar as pessoas. Meu pai , sempre calmo, cordato de fala mansa, naquele dia ficou bravo comigo, reclamou e bateu o telefone depois que mais uma vez pedi para assistir o desfile junto com ele. Também, eu, menino bobo, depois de nunca atender a um singelo pedido do meu velho pai, ligo para ele numa véspera de carnaval, com tudo pra fazer...
Muito bem, 2 minutos depois, meu pai, mais calmo, ligou para mim e pediu minha presença junto a ele assistindo ao desfile, como sempre. Mas, dessa vez, ele nos desafiou a fazer por merecer o ingresso: teríamos que trabalhar na organização dos desfiles, como voluntários. Teríamos que nos apresentar na UESP na quarta-feira ao Sr. Dejair Martins, diretor da casa, para trabalhar.
Nesse dia entrei pela primeira vez na sede da entidade. Vi uma pessoa dentro da sala gritando “Léééiiiaaaa”!. Era o presidente Eduardo Joaquim chamando a secretária Edleia dos Santos, hoje a nossa Presidente.
Eu e meu irmão trabalharíamos no bairro da Vila Prudente. Estava, então, conhecendo e entrando na escola da minha vida que se chama UESP. A partir dessa vivência no carnaval de 86, quando pude trabalhar na organização do carnaval, fiz de tudo um pouco: contagem de componentes, cronometragem de desfiles, entrega de lanches... Senti o que é participar do samba, da vitória que é uma comunidade aportar o seu abre alas na ponta da pista, da sensação do componente chegar perto da corda, a garra do batuqueiro batendo com a mão sangrando e... das pessoas que organizam tudo isso sem dormir sem comer. Senti tudo isso com apenas 15 anos, era demais para mim, o meu pai tinha razão, eu tinha que viver todo o processo da construção daquela paixão, daquilo que mexia tanto com a minha cabeça, e resolvi aparecer na UESP durante o ano.
Aprendi muito sobre decência. Fui conhecendo mais o meio e posso dizer que aprendi muito sobre relação humana aqui na UESP, pouco a pouco.
Eu tive o privilégio de participar, desde então e até hoje, de grandes histórias promovidas pela UESP. Eu posso dizer que fui formado pela “Escola UESP de Cultura Sambística”, quando entrei, pra curtir, em fevereiro de 1986. Eu era um menino que gostava de carnaval, e hoje, dizendo que meu pai sempre esteve certo, eu sou um homem que vive o carnaval, e o ama como um menino.

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