| AXÉ
MINHA BAIANAS
Um
dos grandes símbolos da resistência da cultura
negra e do samba está na imagem de uma Baiana. Presença
obrigatória em toda escola de Samba e tradução
artística da força da mulher negra, é
inegável que as Baianas merecem um aplauso especial
em todo Carnaval.
Por Fernando Penteado,
Salve
a simpatia das Baianas, estas jovens senhoras que, com sua
graça e malemolência, nos envolvem e nos levam
a crer que Deus existe. Axé minhas Baianas, que,
no rodopiar da suas sete saias, nos dá a proteção
para o samba nosso de cada dia, samba este que elas souberam
proteger e abençoar, com garra e sabedoria. Graças
a essas divinas senhoras, o nosso bom e envolvente samba
está no mais alto patamar da cultura brasileira.
Na época em que falar de samba era crime, elas o
trouxeram para dentro do seu terreiro e o cultuaram acompanhadas
de muita gente bamba. Simples batucadas e cantorias ecoavam
do terreiro de Tia Ciata – uma das muitas baianas
que emigraram para o Rio de Janeiro, sendo ela a pioneira
em promover grandes noitadas de batucadas e cantoria.
Por mais longe que esteja uma escola de samba, não
importa o enredo, não importa a nacionalidade –
sabemos que os desfiles das escolas de samba já atravessaram
fronteiras – lá estão elas, nos seus
trajes suntuosos, sob a proteção dos orixás,
contidos em seus panos da costa.
Varias homenagens já lhes foram prestadas. Já
lhes ofereceram canções, versos, livros, sua
imagem já serviu de modelo pelos mais diversos e
renomados pintores e escultores. Mas temos certeza que por
mais que se tente homenageá-las, sempre ficam faltando
adjetivo para expressarmos nosso respeito a elas, que são
presença obrigatória nas mais diversas manifestações
da cultura afro-brasileira.
O
samba paulista tem uma peculiaridade ímpar em sua
formação: é eminentemente caipira,
tendo seus precursores vindos dos mais diversos municípios
paulistas, a exemplo de Pirapora, Amparo, Campinas, Tietê,
Piracicaba, Batatais e outros de igual importância.
E, quando aqui chegaram, se espalharam por diversos bairros
da capital, sendo que os homens iam trabalhar com serviços
que requeriam força bruta. E as mulheres iam ser
domesticas e cozinheiras, nas casas de pessoas da alta sociedade
paulistana.
Muitas
destas simples quituteiras ficaram famosas, por oferecerem
um serviço de alta qualidade, e com isto seus serviços
passaram a ser disputadíssimos. Não demorou
para que as tias quituteiras escrevessem seus nomes no cenário
do samba paulistano, pois elas conciliavam o trabalho com
a diversão, e promoviam grandes encontros com os
bambas do samba paulistano em suas casas onde, em conjunto
com outras quituteiras, promoviam grandes rodam de batuque
e samba, regados com muita comida e muito samba de primeira.
Assim eram nossas queridas tias quituteiras, hoje nos enchendo
de orgulho, sendo representadas pela ala das Baianas.
Em
cada rodopiar de suas setes saias, espalha-se bons fluidos
pelos ares, nos dando a proteção divina para
um bom desfile. As Baianas são mais que personagens
dessa história: são alicerces. Desde tantos
anos atrás, e pelos próximos 120 anos, com
toda certeza.
Fernando Penteado
Presidente da Embaixada do Samba Paulistano
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