| ABOLIÇÃO
NAS MÃOS DOS AFRODESCENDENTES
Juarez Xavier
A
população afrodescendente recém saída
dos grilhões do cativeiro viu-se destituída
de direitos e segurança social. A Lei da Terra a
privou do acesso ao mais importante “meio de produção”
daquela época, exigindo a necessidade da formação
de poupança individual ou familiar para a compra
de lotes. De acordo com a Lei da Terra (Lei nº 601),
o Estado abria mão do seu direito de doar e colocava
as terras no mercado para a venda a quem dispusesse de dinheiro
para comprá-la.
Não foram constituídas políticas compensatórias
que ressarcissem a população de ascendência
africana dos prejuízos causados pela escravidão.
A população afrodescendente migra das senzalas
para as franjas da periferia social: as favelas; expressão
imprimida na vida social brasileira pela população
sobrevivente da Guerra de Canudos, transferida para os morros
do Rio de Janeiro.
Há um acelerado processo de desagregação
social. Esse processo é acompanhado pela tentativa
de desarticulação da memória coletiva
dos afrodescendentes no país.
Esposado pelos construtores do Estado Nacional Brasileiro,
o paradigma científico da época era baseado
no conceito de “hierarquia racial”: brancos
no topo e negros na base. O conceito de “hierarquia
racial” contaminou as diretrizes “fundantes”
do Brasil, propiciando a exclusão “pela raiz”
dos filhos, netos e bisnetos dos africanos escravizados.
Os “Homens de Sciencia” daquela época
desenhavam o futuro do país com os traços
fornecidos por essa “hierarquização
naturalizada”: Manoel de Oliveira Lima, Francisco
José de Oliveira Viana, Tobias Barreto, Silvio Romero,
João Baptista Lacerda, Raimundo Nina Rodrigues, Euclides
da Cunha, Herman von Ihering, Oswaldo Cruz, Miguel Pereira,
A.A. de Azevedo Sodré e Edgard Roquete Pinto.
Roquete Pinto chegou a montar um diagrama futurista que
previa a extinção da população
negra do cenário nacional.
Diagramas de constituição antropológica
das populações do Brasil, organizado segundo
as estatísticas oficiais de 1872 a 1890, por Roquete
Pinto
Ano |
Brancos |
Negros
|
Indios |
Mestiços |
Total |
1872 |
38,1% |
16,5 % |
7,0% |
38,4% |
100% |
1890 |
44,0% |
12,0% |
12,0% |
32,0% |
100% |
|
1912 |
550,0% |
9,0% |
13,0% |
28,0% |
100% |
2012 |
80,0% |
0% |
17,0% |
3,0% |
100% |
Circundados por esses fatos históricos, os afrodescendentes
tinham como única estratégia possível
a aproximação máxima aos padrões
determinados pelas normas sociais dominantes. Eles procuraram
se moldar às exigências sociais da época.
As políticas do “embranquecimento” e
da “democracia racial” visavam criar condições
limitadas de ascensão vertical e seletiva para os
descendentes de africanos.
Os valores morais e conceitos estéticos dos descendentes
de africanos foram esculpidos de acordo com as métricas
dominantes. Essa prática não foi homogênea.
Grupos divergentes foram constituídos. Houve resistência
no setor rural (remanescentes de quilombos) e no setor religioso
(casas de candomblé), entre outros. Esses pólos
de resistência converteram-se, mais tarde, em centros
de “rearticulação” da “memória
coletiva” dos afrodescendentes no país, com
por exemplo, os espaços das três rodas míticas
dos africanos no Brasil: a roda de candomblé, a roda
de samba e a roda de capoeira.
Nessa fase, o ponto culminante desse exercício de
construção de uma “limitada identidade
divergente”, em relação ao padrão
dominante, foi a criação da Frente Negra Brasileira
(FNB), na década de 1930..
. A entidade marcou de forma decisiva a história
dos afrodescendentes brasileiros. Cônscios do papel
político da FNB, os dirigentes da entidade articularam
sua transformação em partido político.
Porém, em 1937, a ditadura do “Estado Novo”
freou suas pretensões políticas. A Frente
é lançada à ilegalidade.
A teoria da “democracia racial” fazia parte
de um projeto mais amplo de constituição da
identidade nacional. Na década de 1930, intelectuais
brasileiros abandonam o “axioma científico”
da hierarquia racial. O afrodescendente não era mais
visto como inferior, geneticamente, em relação
aos brancos. Mas, a suposta superioridade racial dos brancos
foi substituída pela suposta “inferioridade
cultural” dos afrodescendentes, nos aspectos civilizatórios.
Na década de 30, intensificam-se os debates sobre
os rumos da população negra no país.
Esse debate foi registrado nos dois primeiros Congressos
Afro-Brasileiros realizados na década de 1930: o
primeiro em Recife em 1934 e o segundo em Salvador em 1937.
Entre os anos de 1851 a 1960, cerca de quatro milhões
e meio de imigrantes ingressaram no país, provenientes
de várias partes do mundo. Apesar da nacionalização
do mercado de trabalho, o descendente de africanos continuou
marginalizado.
Essa discriminação e segregação
catapultaram o movimento social de afrodescendentes para
o segundo estágio na luta contra o preconceito, a
discriminação e o racismo no período
posterior à escravidão africana no Brasil.
Emoldurado por uma situação de turbulência
internacional, o movimento social de afrodescendentes se
rearticula. A derrota nazi-fascista em plano internacional
criou uma situação favorável ao combate
do racismo no mundo. O conhecimento das atrocidades ocorridas
nos campos de concentração baniu a racionalidade
racista das agendas partidárias.
Intensificam-se as lutas de libertação nacional
no continente africano. Nos Estados Unidos explodem as lutas
pelos direitos civis dos afrodescendentes. Na França,
africanos e caribenhos rascunham as primeiras notas sobre
o movimento de Negritude que tomará dimensões
mundiais.
No Brasil são fundadas novas organizações;
são montadas novas pautas políticas; são
articuladas novas estratégias de combate ao racismo.
As denúncias das novas organizações
procuram desarticular o “mito da democracia racial”.
Desde essa época, as lutas políticas dos descendentes
de africanos criam alternativas de lutas contra o preconceito
– a idéia preconcebida de uma suposta inferioridade
da população negra -, a discriminação
racial – ação discricionário
espacial, econômica, política, cultural e cognitiva
-, e o racismo – a ação articulada que
reduz as possibilidade de vida dos afrodescendentes, e aumentam
seu grau de morbidade.
As escolas de samba, como centros importantes da rearticulação
da memória coletiva e ancestral, jogam um papel fundamental
na luta contra o racismo, ao adotar o tema geral da “Abolição
Inacabada”, para o carnaval de 2008.
Ao se apropriarem da maior mídia do país –
o carnaval –, elas indicam à população
afrodescendente o caminha das pedras: a condução
do projeto de abolição – iniciada no
Quilombo de Palmares, no século XVII – está
nas mãos dos afrodescendentes e cabe a eles dar um
fim a esse projeto inacabado, com a construção
de uma sociedade plural, multicultural e de igualdade econômica,
política e social.
Juarez
Tadeu de Paula Xavier – Doutor em Comunicação
e Cultura e diretor do curso de Comunicação
Social da Universidade Cidade de S. Paulo.
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