| Desfilando
com a História
A história
vivida de 120 anos pra cá, traz, dentro de suas entranhas,
outros pequenos fragmentos históricos que muito explicam
o presente. Eis aqui uma história do nascimento do
concurso do carnaval.
Por
Maurício Coutinho
Muito
se tem falado do Carnaval – seja em São Paulo,
Salvador, Recife ou qualquer cidade brasileira –,
mas poucos conhecem como ele nasceu em sua “fonte”
maior, na cidade do Rio de Janeiro, antes de se espalhar
pelo país afora.
Vai daí que, quando fui convidado a escrever este
texto, pensei de imediato em contar, com muita ajuda de
pesquisas e conversas com sambistas, um pouco desta história
que colabora para ampliar o conhecimento de sambistas e
historiadores, e ilustrar ainda mais o trajeto cultural
que foi traçado pelo samba, deste antes da lei Áurea.
O calendário
novo em folha, pregado na alva parede que recentemente havia
recebido uma mão da cal virgem, marcava o ano de
1932. Sentados na redação, em torno de uma
mesa já desgastada pelo tempo, os jornalistas do
Mundo Esportivo, jornal fundado no Rio de Janeiro por Mário
Filho, irmão de Nelson Rodrigues, procuravam encontrar
alternativas para minorar a perda de leitores do periódico,
bem como a falta de assunto proporcionada com o fim do Campeonato
Carioca de Futebol.
Foi
aí que Carlos Pimentel, brilhante escriba e com fortes
laços de amizade e desenvoltura junto ao Mundo do
Samba, surgiu com a idéia de o jornal realizar um
desfile de Escolas de Samba em plena Praça Onze.
Como
na redação do Mundo Esportivo havia um trio
com reconhecido sucesso como compositores – Orestes
Barbosa, Antônio Nássara e Armando Reis/Cristovão
de Alencar –, aquela simples sugestão foi aprovada
rapidamente.
Para que não ocorresse nenhum problema na escolha
da melhor escola a desfilar, o jornal resolveu estabelecer
alguns critérios, divididos por equivalência
nas notas dos jurados de então.
“Senhoras
e senhores aqui presentes, informamos que os quesitos Melodia,
Enredo, Originalidade, Poesia do samba e Conjunto receberão
três pontos cada um e a Harmonia (que é valorizada
até hoje em dia), terá a incumbência
de ir atrás de cinco pontos! Importante ressaltar
que cada escola deverá cantar três sambas inéditos,
sendo que não poderá utilizar instrumentos
de sopro e será obrigatóra a presença
de baianas no desfile”.
E assim foi feito. O corpo de jurados era composto por membros
conhecidos na sociedade e na classe artística, tais
como Orestes Barbosa, compositor de sucesso à época,
Álvaro Moreyra e Eugênia Brandão, casal
de atores e o repórter Fernando Costa.
O número
de escolas concorrentes surpreendeu a todos: exatamente
dezenove, que trouxeram mais de uma centena de foliões
devidamente fantasiados e luxuosos carros alegóricos.
“Anunciamos
a vencedora do Carnaval da cidade do Rio de Janeiro no ano
de 1932: Estação Primeira de Mangueira. Na
segunda colocação, ficou o Grupo Carnavalesco
de Osvaldo Cruz (que se transformou e passou a se chamar
Portela)”.
Com o sucesso obtido, garantiu-se a oficialização
do desfile, permanecendo no mesmo local até 1941,
quando o local transformou-se na nova Avenida Presidente
Vargas.
O cenário
Para
uma melhor visualização da Folia de Momo:
na década de 30, o Carnaval já era uma festa,
com a elite freqüentando os salões de baile,
fantasiando-se e dançando fervorosamente ao som das
marchinhas carnavalescas de consagrados compositores como
Noel Rosa, Lamartine Babo e Almirante.
Os bailes
de máscaras já tinham quase um século
de tradição, introduzidos em 1835 pelo Hotel
Itatiaia e o Café Neuville, onde confetes e serpentinas,
recentes invenções francesas, abundavam os
salões brasileiros desde 1892. Frise-se que os concursos
de fantasias já eram realizados, em diversos pontos
da cidade, desde os idos de 1908.
Os cordões
carnavalescos de clubes multiplicavam-se e, nas ruas, as
famílias desfilavam em carros abertos – os
corsos -, e o povo divertia-se mesmo era nas ruas, com apoio
do lusitano José Nogueira, o “Zé Pereira”,
que, ao alugar tambores e zabumba, e trazendo seus patrícios
para um improvisado desfile, criava os blocos de rua.
Formadas
em sua grande maioria por negros, surgiam, nos morros, as
escolas de samba, que, nessa esteira temporal, apresentavam
instrumentos praticamente desconhecidos da população,
como cuíca, tamborim e surdo, e passavam a mensagem
que até hoje não se calou: “O samba
é coisa nossa”.
Maurício
Coutinho é jornalista, pesquisador e historiador
do Carnaval.
Sites: www.jornalinformasamba.com.br e www.escolasdesamba.com.br
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