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PERSONAGENS E REALIDADE
Quando
a história do negro no Brasil é contada no
samba ou nas novelas, quem representa os personagens são
pessoas de carne e osso. E elas trazem pra vida real muito
mais que meros trabalhos profissionais – Valquíria
Ribeiro é uma delas.
"Sou
negra, sou mulher e não posso ser burra. Faça
o que fizer, tenho que fazer bem-feito". A autora dessa
frase é a atriz Valquíria Ribeiro, 30, mas
poderia sair da boca de muitos outros nomes, anônimos
ou não, pelo Brasil. Valquíria, ganhadora
do Troféu Raça Negra de melhor atriz de 2007,
teve essa consciência desde que o mundo se mostrou
diferente para seus cabelos nada lisos. "Meu pai me
deu criação rígida, não me aliviou
e nunca me deixou me sentir vítima".
Valquiria
foi criada e formada na sua Escola de Samba do coração,
a Vai-Vai, onde foi Rainha da Bateria em 7 dos 22 anos vividos
no Bixiga. Viver num autêntico e histórico
terreiro de samba ajudou Valquíria a formar sua identidade
e personalidade. Mas nem todos passam por algo semelhante.
"Antes de ser da Vai-Vai, eu sou de uma periferia.
Nesses locais, você já nasce tendo que sobreviver,
já nasce sendo apenas números de uma estatística
ruim. Poucos conseguem fazer o que quase ninguém
espera deles, porque falta incentivo, e também união
entre os próprios negros".
Valquíria
é atriz e bailarina, e começou na TV em 2000,
pela A Praça É Nossa, antes de iluminar-se
com os sucessos de dois personagens de telenovela: em A
Escrava Isaura, ela foi a mãe da protagonista, e,
em seguida, deu corpo à Escrava Jesuína, em
Essas Mulheres, ambas novelas produzidas pela TV Record.
Os dois
personagens, certamente, entregaram a ela uma carga que
a permite falar com propriedade sobre o período de
escravidão e suas implicações culturais
futuras. "Um trabalho veio em seqüência
do outro, e ver a história assim mexe muito, quando
olho pra trás e vejo ancestrais meus nos personagens
que eu faço". Para Valquiria, seus dois personagens
ligados à escravidão mostram uma evolução
social. "Em Escrava Isaura, eu morro no tronco, tratada
como objeto e sofrendo muito. Em Essas Mulheres, já
dava pra notar alguma evolução no tratamento
da sociedade. É bom que hoje já possamos fazer
agentes de viagem, ou seja, personagens bem sucedidos, sem
causar nenhuma rejeição social".
Mas,
claro, tal aceitação ainda não é
suficiente, e Valquiria, otimista, vislumbra um futuro afirmativo.
"É uma questão de representatividade.
Na minha época, ninguém me representava na
TV, muito menos nas gerações anteriores. Hoje,
já existe algo muito melhor, e isso desperta o interesse
das gerações que se formam. Nos jornais, na
TV, na política, vejo gente nos representando, vejo
meu sobrinho sem problemas para desejar ser doutor, dono
de mercado, e as gerações futuras vão
melhorar ainda mais essa realidade".
Na comparação
entre a importância de uma lei e de um veículo
potente que fale ao povo negro, Valquiria é enfática.
"Ainda é uma questão para não
se vitimizar. A cota pra negros está aí? Vamos
usar, sem se sentir vítima! As leis estão
aí, para que a gente use a favor, mas sem dúvida,
a representatividade de uma revista para o público
negro é fundamental".
Na história
real, Valquíria é um personagem que representa
perfeitamente a busca da consciência negra, buscada
desde a Abolição.
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